sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O desprezo

Sou incapaz de sentir tristeza quando dizem que minha arrogância é desprezível.
Eu conheço bem a natureza do desprezo.

domingo, 15 de outubro de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Me encontra no final?

Tudo é tão frívolo e tão sagrado.
Eu penso que devia seguir o dever.
No entanto, a vida é tão rara, tão breve,
é tudo tão intenso, tão verdadeiro e tão breve.
O cheiro, o suor, o beijo, a boca, as histórias,
os delírios. Tudo é nosso. Só nosso.
Mas a vida tem seus próprios motivos.
E o que hoje segue ao meu lado e dentro de mim
tiver que seguir por outro caminho, eu queria poder
fazer um último pedido. E mesmo se eu não puder, eu quebrarei novamente a regras
pedindo, se você puder, que me encontre no final
para um café, um beijo e um forte abraço.

Ana

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Auto conhecimento

Por que o autoconhecimento dói tanto?

Porque não suportamos a verdade sobre nós mesmos. É feia demais. Eu crio todos os dias idéias de mim lindas, encantadoras, vencedoras. Seja na carreira, no amor, com os amigos. E ideias nefastas sobre os mais fracos, os mais pobres de espírito e de grana, dos doentes, dos mais burros, da mesquinhez. No entanto, quando eu vou olhar para a minha verdade, ela é igual ao que eu desprezo ou pior. Na maioria das vezes ela é pior.
Então, neste momento, eu entro numa mar de angústias porque eu tenho vergonha de ser o que eu descobri, e ainda mais vergonha de reconhecer para os outros. Essa força paralisadora é tão forte que te impede de seguir o óbvio. Por exemplo, em todas as cenas no qual uma pessoa reconhece um erro, ela é absolvida ora pela compaixão, ora pela admiração de quem assiste. Logo, podemos concluir que a sociedade é extremamente simpática ao reconhecimento público das próprias falhas. Logo, reconhecer erros deveria ser algo usado largamente por todos aqueles que gostariam de ser bem vistos em sociedade. Mas não é. Mesmo sabendo disso fazemos o contrário. 

E que vergonha é essa ? É imaginar que os outros possam ver aquilo que você viu e não gostou.

Ana Cabral

o amor pelos homens

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:
“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou.
Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários?
Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!
Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?
Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”
Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.
“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?
Agora, amo a Deus; não amo os homens.
O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.
Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.
“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha.
E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”.
“Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.
O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

Trecho de Assim Falava Zaratustra (Prólogo)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

étranger

Je suis l’étranger
Et ça peut se voir
Je ne parle pas
Tout-à-fait comme toi
Je viens de la plate-bande
Où les aubergines
Se violacent dès l’aube
Elles sont comme moi

                    Amarante

O caminho

Eu gosto do que há de mais tolo em mim. Costumo dizer que sou guiada por um moleque de nove anos. Carioca, claro!
E é só por isso que eu preciso escrever só para mim. Pois só eu suporto tanta imaturidade. Eu aguento os jovens, lembra?! 

Tem muita arrogância na minha escrita, muita rebeldia, muita pirraça. E, claro, mágoa para todos os gostos.

Ontem, 12/07/2017, ele veio chorar a dor de ser incompreendido nesta vida. Eu lhe contei a minha mais doce verdade, e pude ver um nó preso em sua garganta, que em seguida desceu seco, denso, pesado. Olhava no horizonte mesmo tendo um prédio à sua frente. Não havia horizonte. Seus pés batiam duros contra o chão: irritados, rancorosos, e tremiam de frio.
É o preço.
A sabedoria é remédio amargo, um caminho espinhoso e pra piorar, parece não ter fim.
A maioria das pessoas não querem percorrer esse caminho, ele é muito difícil e doloroso. E, portanto, fugirão de tudo aquilo que passe perto dessa trilha. Mesmo quando o caminho que escolherem for mais longo. 

Isso significa que, necessariamente, seremos solitários. Os assuntos comuns são recebidos com imensa alegria nas mesas comuns de bar: futebol, novela, seriados, celebridades. E eles são capazes de tratá-los por longos períodos num único dia. A bem da verdade, como nós também fazemos com os nossos interesses. Somos iguais em polos diferentes. 

- Não ouse  insistir em seus assuntos cansativos à mesa. Nós não teremos tolerância. - Dizem.

Cabe a nós, que já percebemos as fraquezas deste adversário, observar com cautela este desejo sombrio de covardia tomar nossos pensamentos. Devemos perceber, também, o valor da cortesia e o poder da compreensão.
Compreender que cada um tem o seu tempo. E o tempo, ahh o tempo, tem regras próprias. Recuar diante de um histérico é a atitude mais sóbria a se tomar, desde que seu desejo original não seja o de desequilibrá-lo completamente.

Iremos encontrar almas raras pelo caminho, e seremos felizes se formos capazes de aproveitar cada momento, que deverá ser igualmente raro, dessas companhias. São uma espécie de almas gêmeas, almas irmãs e nos trazem grande alegria sempre que aparecem. Serão elas nossa trégua nesse campo de batalha, onde a luta é contra mundo interno e externo. 

Aparentemente, para sempre.

sábado, 8 de julho de 2017

Debate social

Eu: preciso de liberdade
Sociedade: pra quê você precisa disso?
Eu: para viver!
Sociedade: já comprou um plano funerário?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Naturalidade do ser

Todos nós somos profundamente injustos e só não agimos injustamente por que temos receio da coerção social que pesa sobre nós
Por que se tivermos certeza da impunidade então, evidentemente, faremos de tudo para que nossas ambições e pretensões sejam satisfeitas sem nenhuma medida.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Relatos do Tuco

Tuco: Mamãe Ana canta com a gente
Mamãe Ana: Mas eu não sei a letra
Tuco: A, E, I, O, U

<3

sexta-feira, 9 de junho de 2017

reflexão

Resisto, porém, a trair minha alma, pois morro de medo da vingança que ela pode impor-me no futuro.

Felipe Miranda

segunda-feira, 5 de junho de 2017

e ao coração que teima em bater

pois é, não deu
deixa assim como está, sereno
pois é de Deus
tudo aquilo que não se pode ver
e ao amanhã a gente não diz
...

segunda-feira, 29 de maio de 2017

essência

seu nível de idiotice é grave
mas em qual outro nível
seria possível rir de si mesmo?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Haja cervejas

Tirando os filmes que lembro bem a história e a dor dos personagens, todos os outros são apenas cenas, dessas que a gente vê na vida: o motorista entregando o troco, a dúvida do visitante, os carros parados no semáforo, uma velha morta na calçada. Cenas da existência.
Eu vejo, além das cenas concretas, as cenas da emoção. As cenas dos desejos, das paixões. 

Ontem ela disse: - sabe quando estamos em disputa de ego com alguém, mas não é explícito? Então. É algo que está por traz de cada fala, cada gesto, cada expressão.
São as cenas por trás dos encontros
Aquele desejo proibido. Aquela saudade de um tempo. Aquilo que já foi e nunca mais voltará, pelo menos não nessa vida.
A perda é a pior dor dessa vida. É o abandono absoluto, é o que minha mente consegue alcançar.
O abandono é uma dor que parece que não cura. Ela ameniza, mas não acaba. Como o amor. Ele ameniza, mas não acaba nunca.

E a gente vai levando. Cada etapa, um lamento. Vai ficando denso. Por isso é tão duro envelhecer. A maturidade é a reunião de todas essas emoções. A sabedoria pesa e exige de você prudência em tudo, compreensão de tudo, respeito à tudo. E respeitar é negar sua própria vontade. Depois de um tempo fica mais fácil aceitar, mas ainda dói.
Não faço ideia da razão disto tudo. Não faço mesmo. Por isso blasfemo todos os dias contra a criação. Tenho sempre a impressão de estar cometendo um grave erro. Um pecado. Mas se eu fosse deus perdoaria os ignorantes. Compreensão. Afinal, Eu não sei.

Talvez saber o propósito do todo aliviaria minha angústia, mas até isso transformaram num desafio. Tudo é desafio. Com tarefas cada vez mais difíceis. A vida parece sentar-se na arquibancada com uma cerveja e um pacote de salgadinhos fazendo aquela cara de "meu deus, que desastre" enquanto me vê disputando afetos. 

Bom, se ela se sentou é por que pagou para assistir à este jogo, isso me alivia pois penso que talvez esteja no lugar certo.
Aceitar perder alguém que amo definitivamente não é um bom jogo. Ou pelo menos, pouquíssimo interessante. Até por que não é muito difícil entender as causas de tudo; o por que de acabar. 

A perda é golpe violento. Haja cervejas.

11/05/2017

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Angústia

essa calma que me entorpece
o que me acalma me adoece
é de novo a morfina que remove a dor e mata
é também a essência de uma vida de merda
de uma vida ingrata

eu, filha da morte e da vida
nasci assim, angústia.

terça-feira, 25 de abril de 2017

define: wishful thinking

wishful thinking, um desejo íntimo disfarçado de narrativa analítica. 

esse é um dos meus medos: me pegar no meio de uma lorota estruturada para me dar razão.
me conhecendo bem, dificilmente eu vou reconhecer ao meu interlocutor que trata-se de mais uma artimanha do ego.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

define: afeto

afeto: tradução em sensações do encontro com o mundo.

A sua presença age sobre o meu corpo transformando-o e eu tenho sensações que decorrem desta transformação.

Tudo o que você sente nada mais é do que afeto.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Que aprenda com isto

um café e alguns biscoitos
isso serve bem, mas como de costume
não empolga.
Epicuro estava certo: corromper o gosto
é um problema sem volta.
Mas vamos ficar bem

preciso mesmo é parar com essa
transferência de responsabilidade
da tragédia que é minha existência
o impulso da coitada é sempre mais forte
mas ainda tenho minha lucidez

Que aprenda a viver com ela!

no entanto não posso deixar de lamentar
o quão cruel a vida foi comigo
retirou todas as certezas
me jogou num mar de solidão
tirou meus amigos
tirou meu amores
minha família
tudo.
para cruzar este caminho
deixou apenas meus delírios
para que eu possa suportar
essa chaga com um pouco de humor
e, portanto, não me poupou nem de mim mesma

minha lucidez traz consigo
a clareza sobre a pilhéria dos meus gostos
a pilhéria dos meus desejos
a pilhéria da minha solidão

Que aprenda a viver com isto!

sexta-feira, 31 de março de 2017

I am mine

I know I was born and I know that I'll die
The in between is mine
I am mine

Eu sou a indigência divina

Quando distraída, vomitarei minha vaidade sobre a mesa 
para que sintam meu desprezo por tudo que é terreno, 
inclusive o sexo fácil. 
Para em seguida sentir o peso da vergonha 
por ser menor do que o esperado. 
Nesses momentos sempre olharei para a minha culpa 
com igual desprezo, 
pois sei que posso ser ainda pior.

É peça que não encaixa

- Vai embaixo que eu vou em cima.
- De alguma forma não se encaixa.
- Mas quem explica essa vontade?

Tem cheiro de naftalina, mas está na moda.
Tem manias estranhas, tipo tremer o rosto enquanto diz qualquer coisa tormentosa.
Mas quando se afasta, eu tremo.
A saudade vira dor metastática. Haja morfina.

Eu só sei que enlouqueço quando essa dor volta.
Às vezes penso que é por conta da autoestima, às vezes penso que é amor. Às vezes não sei. Às vezes não quero saber.
Às vezes me bate, às vezes me afaga. Pensei que escrevendo eu poderia analisar tudo isso, depois do curso de psicanálise. Pois é. Se houver tempo, quem sabe.

Bom. Não sei o que vão escolher. Eu acho realmente que o  aventureiro covarde estava certo. Eu sou egoísta. Raul nunca tocou tão alto.

Mas... Meu egoísmo é tão legítimo quanto o altruísmo. O altruísmo é dar garantias que outro ficará bem se depender de você. O meu egoísmo garante que os outros estarão bem e eu também. E aí os fins justificam os meios.
Eu não posso anular minha passagem nessa terra, que me cobra um preço alto por doses homeopáticas de alegria, em função da plena felicidade de todos. É impossível.

Cada um com interesse próprio que diz respeito apenas à vida que escolheu viver, e querer que o outro se encaixe perfeitamente nos seus planos é tirar do outro a chance de viver plenamente a própria vida. É querer enfiar uma peça redonda num buraco quadrado menor do que o raio. Esse é o egoísmo indigesto.

A vida e as pessoas exigem que eu aja de forma infantilizada diante dessa grande incoerência. Mas minha dignidade enquanto indivíduo alma, espírito e corpo não me autoriza.
Toda vez que ouço tais ameaças, por amor, eu tento querer o que eles querem. Por amor, eu tento poupá-los. Porém, subitamente, o senhor de mim emerge decidido a parar imediatamente com tudo que me desvirtua do acordo da vida. Me faz lembrar que trata-se de um pacto com a divindade: Eu passo por essa vida para oferecer todo amor que eu puder dar a alguém. Eu vou amá-los. Verdadeiramente, vou amá-los. Darei à eles parte de minha solidão, mas exigirei em troca o direito de Mim.

Vim ao mundo num corpo de 1,62. Cabelo crespo, cor negra, pouca beleza, humor sádico, vaidade extrema, lucidez, força física e mental, inteligência e uma capacidade absurda de sentir. Essa mistura aí me fez forte pra caralho. Fez-me uma astuta jogadora. Mas evito o jogo. Acho baixo, apesar de necessário. Necessário para que eu possa garantir meu direito de ser. Acima de tudo, sentir. O direito de amar tem as mesmas origens do direito de morrer.

Aquele tal egoísmo, que só existe para encaixar as peças. Mas ninguém fala sobre a condição deste encaixe.
Para que ele ocorra, alguém precisa morrer. E eu? Eu não me candidato.
Mas fiquem à vontade. Façam o que precisar ser feito. Inclusive me matarem a pauladas, se assim for necessário.

"Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição"
Amarante

quinta-feira, 30 de março de 2017

Percepção


ele me olhou e sorriu
eu, retribui
beijou meu rosto e confidenciou
- me parece que não estás feliz
espantada refleti:
- não lembro de ter sido feliz algum dia

terça-feira, 28 de março de 2017

Elucubrando

a minha vida, eu sempre digo, é um grande erro
e digo isso por que sou essencialmente pessimista
mas não conheço alguém mais positiva em relação a vida
do que eu

eu não amo a vida, não há muito o que amar aqui
temos muitas pessoas, mas é raro encontrar algo que valha
tive e tenho amigos surpreendentes
de maneira geral eles continuam os mesmos
alguns mais fanáticos do que outros
se fossem eles escrevendo, eu estaria em algum grupo desses radicais
pois é.. talvez por isso ainda amigos

não tenho muita paciência com os fatos sem importância
e, portanto, pareço seguir na direção contrária do mundo
é difícil não reclamar quando isso acontece
por que há tanta coisa acontecendo
tanta coisa relevante, e nós aqui falando da seleção
OK.. eu já aceitei
Não vai ser do meu jeito... tudo bem

também não será em bando
não há ninguém na praça após às 23 horas
tudo o que eu penso e desejo, neste lugar, precisam ser camuflados
não estou autorizada a desejar nada de inadequado
eu queria conhecer o cara que inventou essa ladainha toda
ele deve ser bom: a obediência é generalizada

é comum ouvir hoje em dia argumentos do tipo
devemos fazer isso ou aquilo por que é o acordo da sociedade
daí eu te pergunto: quando rolou a assembleia? eu não fiquei sabendo..

quarta-feira, 22 de março de 2017

HINO À VIDA

de Lou Salomé (1881)


Tão certo quanto o amigo ama o amigo,
Também te amo, vida-enigma
Mesmo que em ti tenha exultado ou chorado,
mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.

Eu te amo junto com teus pesares,
E mesmo que me devas destruir,
Desprender-me-ei de teus braços
Como o amigo se desprende do peito amigo.
Com toda força te abraço!
Deixa tuas chamas me inflamarem,
Deixa-me ainda no ardor da luta
Sondar mais fundo teu enigma.

Ser! Pensar milênios!
Fecha-me em teus braços:
Se já não tens felicidade a me dar
Muito bem: dai-me teu tormento.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Perdão dos Deuses à Sociedade Contemporânea



os deuses não perdoarão
aquele que entregou 
um espelho à Narciso  

esse pode ser o início
da decadência desta civilização
ou o início de uma nova era
de completa escravidão do Homem

segunda-feira, 6 de março de 2017

O Infinito

tudo começou quando eu resolvi imaginar
como seria viver eternamente em algum lugar (céu ou inferno)
e antes de decidir onde seria melhor
eu fui tragada pela infinidade

e se não fugisse rápido dali, eu sumiria

o infinito é tempo que não acaba
é espaço que não cessa

existir onde tudo não acaba
é acabar
por que a ideia que tenho de mim
termina

deve ter sido por isso que ele falou
em grão de areia

deus, deus...
não sabia que o eufemismo
era um recurso de sua divindade

e não adianta tentar me convencer
de que trata-se apenas de compaixão

eu já sei que isso não é coisa sua

O início do desmascaramento

a arte é mais verdadeira que a verdade
por que a arte assume que é uma ilusão
já a verdade, se pressupõem real
sem oferecer todos os resultados
das análises possíveis

e quantas são as análises?
até onde vejo.. infinito.

as possibilidades de que algo seja
realmente aquilo que se vê
precisa considerar todas as variáveis
que participaram do processo

e fazer isso, para um ser humano, é quase impossível
ele precisaria se perder completamente
ou, na melhor das hipóteses, se esquecer (é a mesma coisa)
sem se esquecer, não poderia trazer à tona
tudo que existiu de forma isenta

Vale lembrar que o homem
analisa o mundo a partir dos seus sentidos

então me diga: alguém aqui confia nos sentidos?

"ao olhar profundamente para a verdade
é possível sentir o cheiro da maquiagem"
Autor: O bêbado

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ciranda do Tempo

Passado, presente e futuro
O passado não é, pois não há existência material
O futuro não é, pois não há existência material
O presente também não é, pois se fosse, permaneceria e seria eternidade
Estranho presente que para ser tempo precisa deixar de ser e transformar-se em passado

O passado é uma forma particular de presente
O passado é uma lembrança, mémoria
E memória é produção intelectual no presente
É Presente que deixa de ser

O futuro é presente quando pensamos sobre ele
O futuro é uma projeção no presente

Logo, o presente é a única coisa que existe

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Angústia || Tal como

minha angústia grita alto
parece fazer pirraça
não se conforma com esse mundo
que insiste em provar o contrário
daquilo que estava previsto.

por mim, claro!

quanto mais respiro
mas fundo eu avanço
não lembro bem
quem deu o pontapé
mas afoguei

agora luto para
não ser um corpo
pálido e gélido
na areia de qualquer praia

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Julieta


e lá vem ele
já não consegue esconder tanta feminibilidade
almodóvar!

eu já não vou muito bem
há tanto tumulto dentro de mim
que já já transbordo
e não faço ideia do que acontecerá
ontem, por um triz, eu não transbordei

o filme apresenta uma mulher linda
inteligente e humana
cheia de medos e confusões
a vida parece-lhe testar
sem piedade, sem explicação

primeiro sua impaciência
suicida um homem desconhecido
em seguida
seu ciúme coloca o homem da sua vida
na berlinda da vida. e ele vai
mas por sorte ou azar
ele deixa uma filha
amorosa, cuidadosa, linda
e apaixonada pela vida
e ela a abandona

antes a tivesse matado

é sofrimento de grosso calibre
do início ao fim

no entanto, a clareza com que trata
aquilo que é inevitável
chega ser irritante
e por várias vezes eu pensei:
essa mulher que vive em almodóvar
é a mesma que vive em mim

como a dor de chico buarque
que parece tanto com a minha

almodóvar não entrega nada inédito
a condição humana, o sofrimento e o peso da existência
as relações secretas, tão necessárias quantas as públicas
e expõem a inexorabilidade do amor

o amor nada tem haver com a moral
o amor tem haver com a vida
que ignora a moral e exige cumprimento
daquilo que ninguém concordou
como tudo aquilo que não se explica
o tesão, a paixão, o afeto, a ausência e a saudade
tudo que impulsiona, retrai

almodóvar nos entrega suas cores
que, para mim, são as nossas fantasias
para deixar a vida mais suportável
a vida é dura como uma rocha
as causas-consequências são seus fluxos
frios e letais. nada passa ileso
só nos resta a arte, para apimentar essa salada sem sabor

só nos resta pôr cor nesse mundo cinza
de emoções cinzas, de fatos escuros

só nos resta a gentileza de quem nos quer mal
ou daqueles que querem apenas sorrir no final
por que as lágrimas... ahh, elas não nos faltarão

O desabrochar da Intuição

no último sábado eu fui assaltada
por volta das 23h na rua da minha casa
duas meninas, drogadas, apavoradas,
com a adrenalina à mil (como eu queria sentir isso)

me abordaram com se tivessem intimidade
me tocavam com leveza,
em todas as partes
como se não quisessem machucar
e não queriam, não o fizeram

não tive medo, não tive raiva, não tive nada
somente fantasias de como as coisas poderiam ter sido
o velho hábito de querer que a vida siga nosso roteiro
mesmo sabendo que ela não vai seguir

hoje, segunda-feira, semana do carnaval de 2017
eu lembrei
lembrei que eu já sabia
estava com mal pressentimento havia uns dois meses
algo em mim dizia: - você será assaltada. precisa se preparar

E me preparei
Reduzi as vezes em que levava o notebook para casa
na mochila, por que eu iria caminhar de noite
não era seguro

fiz backup de todos os projetos
em meu velho notebook
para isso tive de encarar uma santa ifigênia
cheia, barulhenta e suja
num sábado de manhã
me valeu uma intoxicação

passei a trancar a porta de casa (secretamente)
deixei de usar o celular enquanto caminhava
a mochila, puxei para frente
até que me acomodei
eu fiz tudo o que não poderia fazer ao mesmo tempo

bebi, fumei, saí para pedalar
com o celular e o fone de ouvidos
um bracelete e o arrependimento
de não levar o cartão: tive muita sede no caminho

é verdade que me blindei de várias formas inúteis
afinal, eu sabia que iria acontecer, mas não sabia como nem quando
quando aconteceu, eu não estava com minha blindagem
mas a certeza de que aquilo era inevitável
fez com que eu não sentisse nada. e foi bom assim

é a segunda vez que me ocorre
um pressentimento nos últimos seis meses
pelo menos de que tenho lembrança
eu sempre vi glória nesta condição feminina
uma espécie de força e privilégio
mas agora eu não sei se é

saber o que vai acontecer
é insuportável, mas parece imprescindível
no entanto...
imagina se, num desses pressentimentos,
a intuição me diz que eu terei de deixar ir
alguém que amo?

será que eu começaria a arrumar as malas?
a dele ou a minha?

de qualquer forma, seria duro demais.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Na rua

Quantos vemos um estranho nos observando,
desejamos intimamente que ele nos leia
ou que pelo menos
não nos julgue mal.

A revolução (re)iniciou

A corrupção e a completa indiferença ao povo criou uma massa ignorante e pobre.
A pobreza tirou a esperança e criou revolta.
A revolta criou oportunidades no crime.
O aumento da criminalidade criou a necessidade de mais policiamento.
Cresce a repressão truculenta, aumenta o poder de fogo da bandidagem.
A policia perde completamente o respeito dos favelados e dos maconheiros da PUC,
que vire e mexe são interpelados na saída da rocinha.

Os policiais são os pobres que aprenderam a ler
e interpretar texto de forma básica.
Passaram num concurso público medíocre e com isso ganharam armas
e a plausível ilusão de poder absoluto.

O policial acredita que todos os outros meninos
que cresceram com ele naquele bairro vagabundo (de onde ele não sai)
teriam as mesmas condições de criar uma nova realidade (como ele fez entrando para a polícia).
A apesar de acreditar secretamente de que ele próprio trata-se de algum tipo de gênio,
e que a prova de admissão é difícil demais pra ralé passar.

Como dispõe da mesma moral dos pivetes de seu bairro,
ele começa a se corromper na corporação.
Ganhando pouco e com uma vontade louca de se diferenciar na vizinhança,
ele passa a cobrar propina de viciados e bêbados madrugadas afora (como fazem as putas).
Afinal de contas, a Polícia paga muito mal para "Proteger" a vida.
Não é mesmo, Doutor?
No fundo ele odeia o fato de ter de baixar a cabeça para o patrão
e descarrega sua ira no preto macaco filho da puta que está vendendo cocaína
...indevidamente
...para o maldito playboy viciado.

Isso eu não posso falar para o doutor... é filho dele.

Agora graduado na rua,
ele se torna o algoz da comunidade.
- A macacada faz dinheiro no morro. É lá que vou ganhar o meu.
O policial vira classe média com o tráfico de drogas e com as propinas nas blitzes.

Ah... os favelados.
Se tivessem educação em administração e capacidade de planejamento, fariam da favela, Dubai.
Enquanto isso, a classe media intelectualizada vai ao desespero com o aumento da violência
nas cidades, onde a população pareceu se acostumar.
- É só fechar os vidros; - não ande nas ruas de noite; - não use celular na via pública.

Estão acostumados. Tão acostumados como os favelados que já não correm de tiroteios.

Com a incapacidade de reação do povo, que é historicamente passiva, a corrupção já é oceânica.
Em meio a esse caos cego, o Brasil parece ter chegado no seu limite, é uma bomba e está com
seu pavio incendiado.
Uma tal de lava jato mexeu no palito que equilibrava a porra toda.

Enfim..

Enquanto o menino berra por liberdade no metrô de São Paulo, a população furiosa com essa
mania que nego tem de achar que pode ser livre em sociedade, gritam inflamados por mais mortes.
Mortes nos presídios, mortes nas lojas saqueadas, morte aos pretos traficantes.

A juventude, pouco acostumada à crise, bate boca como todo bom adolescente.
Como não aprenderam a pensar, demoram em encontrar soluções para problemas urgentes.
Falam como matracas sobre assuntos que nunca assuntaram, mas já têm opinião formada.
As famílias dos policiais resolveram fechar os quartéis e entregaram a população ao ódio.
Já temos mais algumas dezenas para a conta de 2017. E só estamos em fevereiro.
Os policiais, acostumados a truculência, estranhamente se negam a jogar bombas de gás e balas de borracha.

Que estranho (sqn).

Meia dúzia de gato pingado provocou uma chacina em horário nobre na terra do Espírito Santo
em fevereiro de 2017, mês do carnaval.
Neste momento, o responsável por controlar a porra toda está sendo indicado ao STF, vejam que coisa.
Dizem que é por mérito.
Cada povo, uma moral.
Fazer o quê?

Resiliência intelectual

​É quando,
após o forte golpe de uma ideia estrangeira,
sua mente recusa-se a se liquefazer
diante da possibilidade iminente de admitir outra forma.
Sua vontade urge em recobrar sua primeira forma.

Reflexões de Sábado à tarde II

​Analogamente,
a pós-verdade
não seria as sombras da caverna de Platão?

reflexões de sábado

parece que o diabo assumiu o controle do mundo e começou a criar viado e sapatão.
mas.. para onde será que ele enviou deus?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre Preconceitos


agnes heller

Baudelaire

Embriagai-vos!

Deveis andar sempre embriagados. Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que vos embriagueis sem descanso.

Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.

E si, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que gene, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:

- É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!

Charles Baudelaire

Exaustão efetiva


Dei tudo de mim
para que tudo ficasse bem
só não me peça mais nada
senão não sobro

Meu último treinamento

ele sempre faz do meu mesmo jeito:
eu chego, ele me interpela
meio obrigada eu sigo até sua mesa
ele relata um cenário absurdo
eu olho, e não vejo nada
então peço que ele reproduza o dilema
e o problema não existe

faço uma piada
o cara ao lado rir
ele não estava a fim daquilo
há um tempo

então surge uma expressão popular
ele pensa em uma desculpas
mas sabe que não há para onde fugir
eu posso já sinto o cheiro da vergonha

então eu penso
e se eu estivesse no lugar dele, 
o que faria?
concluo que qualquer coisa, 
menos o silêncio constrangedor

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AO LEITOR

AO LEITOR

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Charles Baudelaire

a primeira explicação sobre a subjetividade


13/02/2017 ~ 08:00h

- Você está triste?
- Não estou triste, mamãe.

<3

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Poema em linha reta

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado [sem pagar],
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

Bulas

Hoje eu sinto que senti
Mas não lembro o que foi
As pessoas passando por mim
Sem cara, sem coração, sem emoção
Por mim, pois para elas ainda é tempestade.

As ruas da cidade seguem frias
Estamos sempre querendo menos multidão
Qualquer lugar em que eu não tenha que me esquivar
Qualquer lugar onde olhares sinceros possam se encontrar
Sem o constrangimento de serem desconhecidos, sendo.

Eu penso que sinto mais que os outros
Até que me passa um pedinte
e então, a pena
Que pena tenha dos miseráveis
Eu sei do que se trata a miséria
Eu pelo menos sinto a miséria

Cheguei na fase em que se aprende a calar
Ainda não controlo o desdém do meu olhar reprovador
Ainda penso em reprovar
Como seu eu fosse o professor

Eu sou, sim, um grande miserável
O miserável quer nada mais que humilhar
Ele humilha com o seu sofrimento
Ele humilha com o seu olhar
Com o seu cheiro
Ele nos faz lembrar que somos tal como ele
Homens. Mesmo higienizados.

Minha miséria é a sede insaciável de curar
Que engraçado, eu ainda sofro numa cama de hospital
Mas eu sei o que é curar
Eu sei como curar.
Só não aprendi escrever bulas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Mataram o ministro em 19/01/2017


Ontem a corrupção assassinou um ministro do supremo. Ninguém menos que o relator da Lava Jato.
Vou ter de adimitir: eu sempre escolho os jogadores mais fracos achando com toda a certeza tipicamente minha de que ele é o melhor. A partida começa e eu percebo que errei mais uma vez.

Hoje acessei as redes sociais certa de que meu povo estaria indignado, articulando uma reação vigorosa a mais esse golpe. Mas não. Hoje, ao que tudo indica, é um dia normal para a maioria do brasileiros.

Entre memes infantis que não dizem nada e algumas selfies eu escolhi o gif abaixo. Estava na página de um amigo de trabalho politicamente consciente. Ele também não gosta dessa gente que eu odeio. Ele também pensa em salvar o Brasil. Ele apoia o "Somos todos Sérgio Moro". Enfim. Mais um dia onde meu pranto berra silencioso e solitário. Mas o gif uma hora vai me animar. Eu tenho fé.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O ímpeto de vida só vem do amor... seja qual for


Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moraes


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Eu ainda escolho a loucura

Eu não tenho nada para oferecer a ninguém, exceto minha própria confusão.

Ofereça à eles aquilo que mais desejam secretamente; e é claro que entrarão em pânico.

Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.

Porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante — pop — pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!”

Jack Kerouac




Eu os desprezo

Ana Cabral

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Convite à existência que vale a pena

Ao destravar a chave, abre-se um universo de conhecimento e o infinito se aproxima a fim de tomar um chá.
Neste momento, são três as possibilidades que lhe ocorrem: fugir em pânico, pedir licença para ficar de pé ou sentar-se à mesa e adicionar limão ao chá.
Mas se porventura você escolher aproveitar esta tarde de outono, com os cabelos ao vento frio e os pés descobertos, saiba que o mundo irá lhe perseguir por esta escolha estúpida.

Você será observado o tempo todo, pelo pavor e a piedade daqueles que, de repente, encontram-se diante de um animal fugido do zoológico em plena avenida brasil.
E se ousares grunhir, serás atacado por toda sorte de objetos que objetivam te desacordar, ou, na melhor das hipóteses, te assassinar.
O que querem os espancadores de bandidos pretos? Eliminar o mal.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Negligência diante do ímpeto de barbárie intelectual, social e afetiva.

Um dia, estava Zaratustra a dormitar sob uma figueira, porque fazia calor e tinha tapado o rosto com o braço.
Nisto chegou uma víbora, mordeu-lhe o pescoço e ele soltou um grito de dor.
Afastando o braço do rosto, olhou a serpente e ela reconheceu os olhos de Zaratustra, contorceu-se vagarosamente e quis se retirar.
"Não - disse Zaratustra - espera, ainda não te agradeci!
Despertaste-me a tempo, pois o meu caminho ainda é longo".

A Sagrada Hipocrisia


Eu nunca vi uma igreja trabalhando para acabar com os bordéis. 
Perto da minha casa existe um puteiro ao lado de uma assembleia de deus, inclusive dividem
o mesmo estacionamento.
Quando passo em frente eu nunca sei o que me incomoda mais: 
meu conservadorismo com os hábitos sexuais ou minha aversão à hipocrisia.

Chuva no acompanhamento, e não é verão

Pois é, não deu
Mais um ciclo se encerrando e esse está doendo muito.
Ontem voltando para casa eu pude ver tudo o que me espera, mas a renúncia ao que está estabelecido é o passo mais difícil.
Por sorte, ela facilitou. Deu mais uma palhinha de tudo aquilo que eu não aceito mais.
Certa vez ela me disse: "há coisas que não mudam nunca". O tipo de frase que dá um frio na espinha.
Não poder mudar é a maior maldição que alguém pode receber.
Quando Bourdieu apresenta seu capital simbólico ele anuncia esta maldição aos desavisados: não vai mudar. E desde então eu venho buscando a antítese, em vão.
Em Jó 38:11, deus diz: "Até aqui virás, e não mais adiante".
Esta sentença é ainda pior que o diagnóstico de poucos dias de vida. Já vi pessoas desmentirem os médicos. Mas por enquanto, deus está com a razão.

Passei os últimos dias experimentando o pior dos sentimentos: ódio, rancor, raiva, desprezo, decepção...
Tudo descia com aquele amargor característico. A cada vitimismo eu sentia meu corpo ferver.
Lembrei da violência que é a minha própria natureza e, mesmo com consciência, eu queria a estupidez. Eu a escolhi em todas as vezes.
Parece remédio amargo: Não quis ver por bem, então irá experimentar o que há de pior no mundo.

Ahh o mundo. Ele também é um remédio amargo.

Convivo com tantos demônios que eu já me acostumei.
No entanto, não gosto de recebê-los em casa.
Veem sempre com muita sujeira... difícil de limpar.

Dias difíceis. Devo ter sido um estorvo para todos.
No carro de volta, havia tanta coisa ruim em mim que pensei em implorar ao tal deus para poupá-los do que eu poderia atrair.
Eu vi meu ego pular alto. Senti meu desprezo pela vida me beijar a boca.
Minha mente estava tão lúcida e tão potente. Potência de morte.
Tudo era tão escuro. Eu era o próprio diabo. E para variar, foi ele quem me acompanhou em vigília.
Mas foi bom: me libertou de algumas ilusões.

A ilusão de tentar mudar quem não vai mudar.
De ignorar o mal que o outro me faz chamando isso de jogo de prazer.
De aceitar relações rasas onde só eu imploro e sinto algo com alguma importância.
Deixar de conviver com o lamento de ser tudo superficial.
Deixar de fingir que não vejo o grande mal entendido que é isso tudo.

A cura dela trouxe também a cura do resto. Mandei tudo para o inferno.
Não venham roubar minha solidão. Eu ainda sou minha melhor companhia.

Talvez eu precise fugir para bem longe.
Preciso ficar longe dela e de todos aqueles tantos mentirosos
Cá estou. De novo, de malas prontas. Talvez não haja tanto pranto. Afinal, me acostumei a partir.

Não sinto raiva. Isso eu tenho de bom. Sei amar quem sempre amei. Não esqueço do que causou encantamento.
Mas o que começa a putrefazer precisa ser enterrado.
Vejam como o mal cheiro espalha rápido.

A mulher que o mundo construiu




Antigamente, bem antigamente, as mulheres eram os seres mais sagrados dentro de uma tribo ou comunidade.
Porque elas geravam a VIDA. Só elas.
Nas sociedades mais primordiais a sexualidade era instintiva e resumindo: todo mundo transava com todo mundo. Ninguém era de ninguém. E as mulheres engravidavam e seus filhos eram de todos, criados pela aldeia.

Por muito tempo os homens não sabiam que tinham participação naquilo que era então visto como algo sobrenatural, um presente dado pelos deuses e as mulheres seu abençoado meio.

Em algum momento, porém, os homens perceberam que a mulher não engravidava sem eles. Foi mais ou menos na mesma época em que foram deixando de ser nômades, passaram a se instalar fixamente em um lugar e a partir dai surgiu a propriedade privada. E com ela a noção de herança. E com ela a necessidade dos caras de assegurarem sua prole. Mas como eles poderiam saber se um filho é dele? A mulher sabe que o filho dela mas e o homem? Só havia uma forma: se a mulher só transasse com ele e mais ninguém. E a partir dai surgiu o casamento, a monogamia, o patriarcado e o conceito de propriedade se estendeu às mulheres.

Aos poucos foram trancadas em casa, servindo apenas a função de gerar e cuidar da prole. A história que a gente já conhece. Para garantir a submissão em várias esferas a mulher foi diminuída e reprimida. Sua sexualidade considerada pecado, até mesmo se tocar, até mesmo pensar nisso. A mulher deve se cobrir, se esconder. Sua vagina é horrível, fedida, a menstruação suja. Nojenta. Impura. Feia.

Menstruação.
Será que existe algo mais feminino que isso?
Será que existe algo mais natural para uma mulher do que menstruar?
E quantas opressões existem em torno disso?
Por quanto tempo tivemos vergonha de menstruar. Vergonha de pedir um absorvente. Em muitas culturas a mulher "naqueles dias" (ate a palavra era evitada) não saia de casa e seu estado era limitante a coisas inusitadas como lavar a cabeça, comer determinados alimentos, fazer sexo e outras atividades, dizia-se certas coisas azedavam se manipuladas por mulheres menstruadas.
O que era benção virou maldição, o que era normal virou obviamente um incômodo. Algo indesejado.
Quando surgiram medicamentos capazes de controlar e ate mesmo nos livrar daquilo a adesão foi enorme. A desagradável obrigação de menstruar junto com tantas outras coisas fez com que muitas mulheres odiassem ser mulher. Quantas vezes ja ouvimos mulheres bradarem desejar ter nascido homem?!
A história da desconexão da mulher com seu feminino não aconteceu em pouco tempo, levou anos, séculos.
Mas hoje estamos voltando.....
As mulheres estão falando sobre isso em suas rodas, desejam sentir seu corpo, conhecer seu ciclo natural sem influência de hormônios externos, se olharem e se amarem como são. Naturalmente.
É mais fácil ser homem? Num mundo machista como o nosso parece que sim.
Mas ja podemos olhar para o organismo de alta complexidade que é a mulher, tanto em nível físico quanto emocional, seus pensamentos amplos, sua profundidade, sensibilidade e intuição.... e admirar imensamente.... Achar lindo, muito lindo.....
Eu tenho orgulho de ser mulher.
Eu amo ser mulher.
Eu não queria ter nascido homem.
E você?


Fonte: Ginecologia Natural